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A resiliência e a sua aplicação na psicologia consciencial

A resiliência tem sido estudada amplamente no âmbito da psicologia positiva. Um dos teóricos pioneiros que estudou a resiliência é o eminente psiquiatra francês Boris Cyrulnik, que a define desta forma: “Resiliência é a superação de um processo com a construção de um novo trajeto pessoal, a partir de uma elaboração que marca a pessoa, mas não a impede de seguir o seu desenvolvimento”[1].

Na Psicologia Consciencial, desenvolvemos o conceito de resiliência como a capacidade que temos de superar as adversidades, transformando-as em oportunidades de aprendizado e crescimento interior. Um indivíduo resiliente é capaz de ressignificar as situações nas quais apresentou um trauma no decorrer da existência ou mesmo os traumas interexistenciais que trazemos marcados em nossas subpersonalidades.

Quando apresenta algum conflito existencial ou um dilema consciencial o indivíduo resiliente, agirá com autonomia de consciência, ou seja, nos dilemas fará escolhas conscienciais. Ao invés de escolher o que o ego deseja, ou seja, o que é mais fácil ou mais prazeroso, fará as escolhas conscienciais, identificando a personalidade com o Ser Essencial, que, mesmo sendo muito trabalhosa, é o que vai nos proporcionar realizar o nosso plano existencial e, consequentemente, sermos felizes. Quando apresenta algum conflito, trabalha efetivamente para dissolvê-lo.

Dessa forma, o indivíduo resiliente tem o foco em realizar plenamente o seu plano existencial, fazendo todos os esforços necessários para efetivar tanto o propósito existencial quanto o programa existencial.

Portanto, a resiliência é uma virtude que se torna necessária todas as vezes que temos uma situação desafiadora a resolver em nossas vidas. Como todas as virtudes, ela pode ser desenvolvida.

Reflitamos, a seguir, como podemos lidar de forma resiliente nas várias experiências-desafio que temos na vida. Essas experiências-desafio podem ser resultantes de um trauma intenso ou uma situação corriqueira na qual lidamos com os dilemas conscienciais e somos convidados a escolher nas várias circunstâncias desafiadoras da vida.

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Todas as experiências-desafio são convites para realizarmos experiências-aprendizado, mas que, muitas vezes, recusamos, gerando para nós muitos transtornos.

A maioria das pessoas tenta fugir dos problemas ou resolvê-los à força. Se nos acomodarmos tentando nos afastar dos problemas que temos, fugiremos também das soluções. Se tentarmos acabar com os problemas à força, rebelando-nos contra eles, gastaremos muita energia, o que nos deixará frustrados e não os resolverá. Cedo ou tarde, cairemos no cansaço, na desistência, e aí nos acomodaremos na fuga, para logo voltar a nos rebelar contra a dificuldade, criando um círculo vicioso.

As experiências-desafio que temos não existem para que tentemos resolvê-las de forma coerciva, e não nos é possível fugir delas pela inércia. É imprescindível nos aproximarmos das soluções para resolvê-las de uma forma gradativa, suave e leve.

A solução dos nossos problemas só é possível se nos colocarmos como aprendizes em todas as circunstâncias da vida, pois, com essa postura, aprenderemos em todas as experiências. O aprendiz da vida foca a solução do problema. Quando erra, cria uma questão para ser resolvida. Contudo, não fica se emaranhando no problema, em um processo de culpa ou de desculpa. Quando um indivíduo que está exercitando a inteligência consciencial faz algo errado, reconhece de forma responsável que se equivocou e, na condição de pessoa responsável, aprende com o erro, realizando uma conquista-aprendizado, para, posteriormente, reparar esse erro.

            É esse o convite que trazemos em nossas consciências. Podemos agir consciencialmente e os nossos conflitos existenciais serão gradualmente resolvidos. Se agirmos assim, a vida será sempre suave e leve, porque é da vida que as coisas sejam dessa forma. No entanto, ainda são poucas as pessoas que procedem dessa forma, inteligente consciencialmente. Muitos agem egoicamente, por meio da identificação da personalidade com os sentimentos egoicos e com tendências egoicas das subpersonalidades que trazemos do passado.

Vejamos como é a trajetória daqueles que agem de forma egoica.

            Todo ser humano nutre expectativas em relação às várias circunstâncias da vida. Antes de reencarnar, quando estamos no período entre uma encarnação e outra planejando as diretrizes de nosso plano existencial, essas expectativas são as melhores possíveis, porque a nossa visão da vida é muito diferente daquela que temos quando estamos no corpo, porquanto pensamos como espíritos imortais que já tiveram inúmeras experiências reencarnatórias e estamos planejando mais uma para evoluir. Essas expectativas dizem respeito a tudo que acontecerá em nossas vidas no que tange ao nosso propósito existencial e ao programa existencial. Quando reencarnamos, em razão da lei do esquecimento todas essas lembranças são momentaneamente esquecidas para que possamos vivenciar as experiências de forma renovada.

Portanto, quando estamos planejando a nossa vida pensamos com a ótica da imortalidade devido às avaliações que fazemos das nossas existências anteriores e, por isso, programamos corrigir esses erros e tendências egoicas.

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            Para que desenvolvamos as virtudes fundamentais para a boa realização do plano existencial, é importante que reflitamos a respeito dessas expectativas a fim de buscar nos conectar com as expectativas conscienciais em relação à vida.

Muitas pessoas, apesar de bem intencionadas, nutrem expectativas egoicas em relação à vida. Como isso ocorre? Há uma ausência de responsabilização pela própria vida e negação do exercício da virtude do sentimento de aprendiz, fazendo com que a pessoa queira fazer prevalecer os próprios desejos de uma vida fácil e prazerosa nas várias circunstâncias de sua vida e não aquilo que planejou antes de reencarnar.

Quando há a prevalência do desejo egoico, ocorre um processo de afastamento e não cumprimento do código moral de leis que trazemos na consciência. O indivíduo deseja satisfazer às suas expectativas de felicidade por meio dos prazeres puramente egoicos e das facilidades, como se a vida fosse um mar de rosas somente com experiências agradáveis ao ego.

A pessoa com essas expectativas egoicas vai entrando em um movimento de ausência de sentido existencial gerador dos três níveis de distanciamento do Ser Essencial e do código moral: vazio existencial, abandono existencial e isolamento existencial, resultando em um estado de profunda frustração e ansiedade, porque, quanto mais ela deseja que as suas expectativas sejam atendidas, mais se distancia delas, pois não é querendo que os desejos egoicos sejam atendidos que iremos cumprir o nosso propósito e programação existenciais.

Podemos agir assim? Sim, uma vez que somos livres para fazer as nossas escolhas, mas não devemos, pois, apesar de livres para fazer escolhas, a consciência nos convida a desenvolver a virtude do discernimento para fazer boas escolhas, praticando a lei de liberdade em conjunto com as leis de responsabilidade, do dever e do esforço.

Se refletirmos profundamente, esse caminho de se afastar das questões existenciais e conscienciais é o mais comum e, por isso mesmo, temos tantas pessoas entrando em situações emocionais cada vez mais graves, como a depressão, a ideação suicida, dentre outras.

As expectativas conscienciais

As expectativas são conscienciais quando há uma conexão com o sentimento de aprendiz e com o código moral de leis, de modo que passemos pelas experiências-desafio nas várias circunstâncias da vida, de forma responsável, focados no aprendizado que elas nos oferecem, pois elas são imprescindíveis para a nossa evolução. É necessário que tenhamos objetivos existenciais nas várias circunstâncias da vida, cumprindo o plano existencial.

A pessoa faz reflexões conscienciais como estas: Eu posso fazer esforços para superar todas as limitações que tenho e aproveitar as experiências-desafio que surgirem na minha vida, porque é a partir delas que eu aprendo a me tornar uma pessoa cada vez melhor, mais virtuosa.

Com isso, ela pode se entregar convicta à garantia de satisfação das suas expectativas de conquistar a felicidade, pois elas se encontram em sintonia com o código moral de leis presente em sua própria consciência e pela prática das virtudes necessárias para uma vida de excelente qualidade. O resultado disso é a conquista de virtudes como a felicidade, a plenitude, o sentimento de pertencimento ao Universo, a paz consciencial etc.

Para que essas expectativas de conquista da felicidade que todos almejamos sejam efetivadas, é fundamental desenvolver uma postura resiliente frente à vida. Vejamos como fazer isso.

Em um mundo como o nosso, não é possível viver sem passar por experiências-desafio, ou seja, experiências que desagradam ao nosso ego, as quais se manifestam em várias situações expressadas nos relacionamentos com outras pessoas; nas condições físicas do planeta com clima e outras situações hostis; nos sentimentos conflitivos que experimentamos; nas manifestações de tendências que trazemos de subpersonalidades vividas em nosso passado espiritual, enfim, são múltiplas as experiências-desafio, que nos convidam a transmutar o nosso ego, pelo cumprimento do código moral de leis e pelo desenvolvimento das virtudes essenciais da vida, em um processo de aprendizado constante.

Ao mesmo tempo, também experimentamos muitas experiências-estímulo, ou seja, experiências agradáveis, não do ponto de vista do ego, pois agradável para o ego é não ter nenhum desafio e tudo acontecer em conformidade com os desejos da pessoa de ter uma vida que lhe agrade os sentidos, ou seja, uma vida agradável sensorialmente.

As experiências-estímulo são agradáveis do ponto de vista do Ser Essencial que somos, pois nos estimulam à evolução, por exemplo, um momento de meditação; uma oração transcendente que nos alegra o coração; uma reflexão que um ensinamento de Jesus, Buda, Sócrates ou outro sábio nos proporciona; uma conversação amiga com um familiar ou amigo que nos auxilie a superar uma experiência-desafio, enfim, são também múltiplas as possibilidades de recebermos estímulos para nos auxiliar conectar com o código moral em nossas consciências, estimulando-nos à prática das virtudes e ao aprendizado.

Importante também é refletir que as experiências-desafio não deixam de ser estímulos se as observarmos com os olhos de aprendizes da vida. Ao contrário, se as recebermos egoicamente, produzirão muita revolta, ansiedade, frustrações e outros sentimentos, pois todas elas nos tiram da zona de conforto psicológico do desejo de ter uma vida agradável do ponto de vista egoico, ou seja, sem nenhum problema para ser resolvido.

Quanto mais desafiadora é a experiência, mais a vida nos convida a desenvolver o propósito existencial, exercitando a virtude que transmuta o movimento egoico que somos convidados a transformar.

Diante de cada experiência-desafio ou experiência-estímulo, somos convidados a nos perguntar em nossa intimidade: o que a vida está me convidando a aprender com essa experiência? Que virtudes sou convidado a desenvolver?

Tanto as experiências-desafio quanto as experiências-estímulo geram experiências-aprendizado para a pessoa que está conectada com o sentimento de aprendiz.

O aprendizado acontecerá sempre de duas formas, pelos acertos e pelos erros. Quando acertamos, ou seja, cumprimos o código moral de leis, exercitando as virtudes, temos uma conquista-êxito. Quando erramos, ou seja, agimos contrariamente ao código moral, desrespeitando-o, recusando, consciente ou subconscientemente, a praticar as virtudes, somos convidados a obter uma conquista-aprendizado, isto é, aprender com o erro, cedo ou tarde, evitando nos culpar de tê-lo cometido, mas assumindo a responsabilidade por ele, em sintonia com as leis de liberdade, de responsabilidade, do trabalho e de evolução.

[1] CYRULNIK, B. Um merveilleux malher. Paris: Editions Odile Jacob, 1999.

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